
Manuscrito francês de 1280-1315
HISTÓRIA DA MÚSICA MEDIEVAL (séc. IX – XIV), PARTE 2
Nos séculos X e XI, os compositores começaram a musicar os textos bíblicos de forma polifónica – ou seja, com mais de uma melodia ao mesmo tempo. Este momento da história da música é mesmo importante, pois acontecem aqui as primeiras experiências de sobreposição de melodias, que levariam mais tarde à formação de acordes e à harmonia que caracteriza a música ocidental. No início, esta sobreposição era muito simples: acrescentava-se uma segunda melodia à distância de um intervalo de 5ª ou 8ª perfeitas, como podemos observar neste vídeo:
Em seguida praticou-se outra técnica para sobrepor melodias, chamada organum: uma voz cantava uma melodia já existente, mas muito mais lenta (“tenor”), e acrescentava-se uma linha musical nova, de fluxo mais rápido e num tom mais agudo. Léonin (c. 1135- c. 1200), um dos compositores mais antigos de que existe referência, era considerando o melhor compositor de organum do seu tempo. No exemplo seguinte, Leonin usa o cantochão Alleluia pascha nostrum como voz inferior (na clave de fá); podemos observar que as notas utilizadas (dó dó dó ré fá ré sol mi sol sol) são as notas do cantochão que aparece em 1’. Este cântico fez parte dos serviços religiosos de Páscoa na catedral gótica Notre Dame de Paris.
AUDIÇÃO: Alleluia pascha Nostrum de Léonin (séc. XII)
As evidências sugerem que as composições de Perotin (ativo por volta de 1200), tal como as de Léonin, foram cantadas em Notre Dame de Paris. Muitas das organas (plural de organum) de Perotin incluíam duas ou, como neste exemplo, três linhas musicais ativas acima do tenor. Perotin desacelerou o tenor (voz inferior) a um grau incrível – neste exemplo, o tenor leva quatro minutos para cantar as duas palavras “Viderunt omnes”! Viderunt omnes é um texto alegre cantado em resposta a uma leitura do Novo Testamento durante a missa, no dia de Natal.
AUDIÇÃO: Viderunt omnes de Pérotin (c. 1200), por Hilliard Ensemble (sugestão: ouvir 4’)
Como nos organa existiam secções longas e rítmicas sempre com a mesma sílaba, os compositores começaram a acrescentar textos de poemas devocionais a essas passagens. No séc. XIII esta prática tornou-se tão frequente, que estas passagens começaram a ser tratadas como obras musicais autónomas chamadas motetos (de “mot” – palavra). Rapidamente surgiram motetos a três partes, com um texto diferente cantado em cada voz. (Às vezes os textos estavam em línguas diferentes!) Os compositores passaram a usar como tenor (voz inferior) canções seculares francesas, bem como passagens de cantochão. Um desses compositores foi Guillaume de Machaut (c. 1300-1377), músico e poeta de enorme importância. O moteto a seguir é baseado num tema secular; cada uma das suas três vozes canta um poema de amor francês diferente.
AUDIÇÃO: Moteto Trop plus/Biaute paree/Je ne suis de Machaut (c. 1350), pelo ensemble Musica Nova
Do mesmo compositor, segue-se um excerto da Missa de Notre Dame, uma das obras mestras da música medieval e do repertório religioso em geral:
AUDIÇÃO: Kyrie da Missa de Notre Dame, Machaut (séc. XIV), pela Oxford Camerata