
Orpheus Leading Eurydice from the Underworld, de Camille Corot (1861)
HISTÓRIA DA MÚSICA BARROCA (1600-1750), PARTE 1
A era barroca da música clássica ocidental é geralmente definida como o período de 1600 a 1750, ano em que morreu J. S. Bach. Enquanto os períodos anteriores (medieval e renascentista) tinham sido dominados pela música de coro, no Barroco há duas novas tendências estilísticas: cresce o interesse pela voz solista, e aumenta também o prestígio e popularidade da música instrumental.
A primeira dessas tendências nasceu em Florença, entre um grupo de músicos e filósofos denominado Camerata Florentina, cujos membros procuraram criar uma forma de música cénica comparável em poder expressivo à antiga tragédia grega. Rejeitando a prática anterior do madrigal polifónico (=a várias vozes), criaram em vez disso uma nova forma – a ópera – na qual os solistas cantavam contra um fundo instrumental. A ópera mais antiga que sobreviveu inteiramente é Euridice, do membro da Camerata Jacopo Peri (1561-1633). Euridice apresenta a lenda de Orfeu e Eurídice, alterada para que Orfeu recupere Eurídice do submundo, conduzindo a um final feliz.
A atração da ópera passou rapidamente a ser a ária, uma parte melodiosa e independente que revela os sentimentos e estado de espírito da personagem que a canta. As árias de uma ópera são intercaladas com recitativos, uma forma de canto mais rápida e próxima da fala, que tem como objetivo o desenrolar da ação. Uma das árias mais famosas do repertório operático pertence a Henry Purcell (1659-1695), que foi organista na Abadia de Westminster e também na Capela Real. Embora tenha sido compositor da corte durante toda a sua vida (morreu com apenas 36 anos), escreveu Dido e Eneias – provavelmente a ópera inglesa mais adorada de sempre – a pedido de um colégio de raparigas em Chelsea.
O libreto, da autoria do poeta irlandês Nahum Tate, é livremente baseado num episódio do livro IV da Eneida de Vergílio, relatando a breve e trágica história de amor entre a rainha de Cartago, Dido, e o príncipe troiano Eneias. Na sequência de uma separação, Dido, sentindo-se abandonada, despede-se da vida na ária “When I am laid in Earth”, conhecida como Lamento de Dido.
AUDIÇÃO: Recitativo e ária Lamento de Dido da ópera Dido e Eneias, de Henry Purcell (1689), por Joyce Didonato
Também de Henry Purcell, uma outra ária – The Cold Song -, da ópera Rei Artur, emprega recursos expressivos como a voz entrecortada, criando a impressão de frio ou soluços. Nesta cena, o génio ou espírito do frio protesta ao ser acordado por Cupido, que traz o calor da primavera, do amor e do renascimento da vida. Texto da ária:
The Cold Song
What power art thou, who from below
Hast made me rise unwillingly and slow
From beds of everlasting snow?
See’st thou not how stiff and wondrous old
Far unfit to bear the bitter cold,
I can scarcely move or draw my breath?
Let me, let me freeze again to death.
AUDIÇÃO: Ária The Cold Song da ópera Rei Artur, de Henry Purcell (1691), por Jakub Jósef Orlinski
Na música religiosa, uma das obras mais emblemáticas do Barroco é a Missa em Si menor de Bach, terminada em 1749, no ano anterior à sua morte. (Embora Bach fosse Luterano, e a maioria das suas composições vocais religiosas – cantatas – fossem baseadas em hinos luteranos em alemão, a Missa em Si menor está em latim, e poderia ser usada em cerimónias luteranas ou católicas.)
AUDIÇÃO: Agnus Dei da Missa em Si menor de J. S. Bach (1749), por Andreas Scholl
Uma outra obra-prima da música sacra Barroca, o Stabat Mater de Giovanni Battista Pergolesi, foi escrito nas últimas semanas da vida do compositor italiano, antes da sua morte prematura aos 26 anos de idade. Prestes a ser vencido pela tuberculose, o compositor retirou-se para um mosteiro franciscano em Pozzuoli, onde escreveria também um Salve Regina. Obra em doze partes, sobre um poema medieval do séc. XIII atribuído ao franciscano Jacopone da Todi, o Stabat Mater medita sobre o sofrimento da mãe de Jesus durante a crucificação.
Escrito originalmente para as vozes solistas de soprano e contralto, é aqui interpretado por um dos mais célebres contratenores da atualidade, Philippe Jaroussky, em dueto com a soprano Julia Lezhneva.
AUDIÇÃO: I. Stabat Mater Dolorosa, de Stabat Mater de Pergolesi (1736), por Philippe Jaroussky e Julia Lezhneva
Em grande contraste com a atmosfera grave e sombria do Stabat Mater, o Aleluia de Handel surge em todo o lado (desde o Diário de Bridget Jones a concursos de televisão) como epíteto de triunfo e glória. Este Aleluia faz parte do oratório Messias; em língua inglesa, este oratório descreve a vida de Jesus, e embora tenha uma dimensão teatral, foi composto para ser apresentado na Igreja.
AUDIÇÃO: Hallelujah do oratório Messiah, de Handel (1741), pelo maestro Trevor Pinnock e The English Concert & Choir