
Esboço de um retrato de Beethoven, por Ludwig Schnorr em 1809.
HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA (1750-1820), PARTE 3
O compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) estudou com Haydn e outros compositores clássicos enquanto jovem; obteve sucesso comercial em Viena do final do século XVIII, tal como Haydn e Mozart. A obra de Beethoven é habitualmente dividida em três períodos, considerando-se que o período final estará mais próximo do Romantismo do que do Classicismo. A imagem de Beethoven como um excêntrico carrancudo e despenteado é em grande parte imerecida, mas é verdade que Beethoven lutou contra a surdez durante grande parte da sua vida, e que algumas das suas músicas pareciam estranhas e violentas para quem as ouviu pela primeira vez.
O primeiro andamento da Sinfonia n.º 5 de Beethoven é construído no modelo de forma sonata (de que falaremos abaixo), tal como era habitual, embora tenha introduzido elementos novos – como uma longa coda (ou finalização). Esta sinfonia é conhecida pelo motivo de abertura de 4 notas (3 notas sol de igual duração e um mi bemol mais prolongado), que forma a âncora rítmica e melódica de toda a composição. O próprio Beethoven terá descrito este motivo como ‘o destino a bater à porta’. É uma imagem evocativa, mas o amigo de Beethoven que lhe atribuiu a frase (Anton Schindler), era conhecido por não permitir que os factos atrapalhassem uma boa história… De qualquer modo, a noção do tema ou motivo do ‘destino’ manteve-se popular.
Este motivo inicial da 5ª Sinfonia de Beethoven teve um apelo tremendo muito para além do domínio da música clássica. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, as forças aliadas utilizaram-no para assinalar um momento vitorioso, pois o seu ritmo – curto, curto, curto, longo – correspondia ao da letra V no Código Morse (Fonte: Encyclopedia Britannica). O motivo do ‘destino’ também apareceu em publicidade e em muitos filmes, como “Whatever works” de Woody Allen: https://www.youtube.com/watch?v=FVojudn2Qek. Mais de dois séculos após a sua estreia, a Sinfonia n.º 5 de Beethoven – especialmente o seu tema principal de quatro notas – manteve-se provavelmente o tema mais célebre de toda a música clássica.
AUDIÇÃO: 1º andamento da 5ª Sinfonia de Beethoven (1804-1808), pela Boston Philharmonic Orchestra
A 9ª Sinfonia (e última) de Beethoven, onde se inclui o Hino da Alegria, é considerada por muitos o auge da sua produção. Utilizando um poema de Schiller, evocando o ideal da fraternidade universal, tem sido usada numa variedade de contextos – inclusive como hino de partidos de ideologias opostas, e recentemente como hino europeu. (Slavoj Zizek fala neste assunto em https://www.youtube.com/watch?v=XM9erS90gTE&t=190s)
Embora a música seja conhecida por todos, penso que vale a pena ver esta bela versão do Hino da Alegria em flashmob:
AUDIÇÃO: Hino da Alegria, parte da 9ª Sinfonia de Beethoven (1824), pela Vallès Symphony Orchestra
A Sinfonia nº3, chamada de Eroica, é considerada uma obra de transição entre o período Clássico e Romântico, e marca o início da ‘Fase heroica” de Beethoven:
AUDIÇÃO: Sinfonia nº3 ‘Eroica’ de Beethoven (1804), pela ORF Vienna Radio Symphony Orchestra
Apesar de já existirem sonatas anteriormente (tal como referimos no Barroco), este tipo de composição só se cristalizou no séc. XVIII, principalmente com Haydn e Beethoven. No período clássico, a sonata destina-se a um instrumento solo, geralmente o piano, e tem 3 ou 4 secções ou andamentos – alternando rápido, lento, rápido. O primeiro andamento é desenvolvido seguindo a estrutura em 3 partes da forma sonata, que obedece à seguinte sequência:
Exposição: Apresentação do Tema 1 na tónica, e do Tema 2 na dominante.
Desenvolvimento: os temas passam por transformações, incluindo modulações, sequenciação, variação e outras formas de exploração.
Recapitulação: regresso aos Temas 1 e 2 da exposição, mas desta vez ambos são apresentados na tónica. Pode terminar com uma coda.
É importante não confundir o género sonata – composição para piano ou instrumento solo em vários andamentos – com a forma sonata: estrutura para desenvolver um único andamento, que é aplicado tanto no género sonata como em sinfonias, quartetos de cordas, etc.
Beethoven escreveu 32 sonatas para piano, incluindo as famosas Patética e Sonata ao luar que referimos no email. A sonata Waldstein, porventura menos conhecida atualmente, fez tanto sucesso com os pianistas amadores assim que foi publicada, que Beethoven terá dito “Quem me dera nunca ter escrito esta peça. Não posso descer uma rua sem a ouvir vinda de uma ou outra janela” (https://www.classicfm.com/composers/beethoven/guides/beethovens-music-piano-sonatas/).
AUDIÇÃO: Sonata Waldstein de Beethoven (1804), por Claudio Arrau
Em contraste com o carácter heróico ou abertamente dramático de muita da sua música, o andamento lento do quarteto op. 130 é mais íntimo e melancólico. Esta composição foi terminada um ano antes da sua morte, em que já estaria num estado muito avançado de surdez.
AUDIÇÃO: 5º andamento do quarteto de cordas op.130 de Beethoven (1826), por Borodin Quartet