
Wanderer above the Sea of Fog, de Caspar David Friedrich (1817)
HISTÓRIA DA MÚSICA DO ROMÂNTICO (1800-1900), PARTE 1
Embora sem data certa de início e de fim, na música ocidental o Classicismo deu lugar ao Romantismo, período que corresponde ao séc. XIX. Muitos compositores do início do século XIX foram influenciados pelos escritores românticos, como Johann Wolfgang von Goethe. Musicaram poemas de Goethe e de outros autores de língua alemã, para serem interpretados por um cantor a solo e piano; estas breves peças eram conhecidas como lied (literalmente, “canção”). Um dos compositores que se tornou conhecido pelos seus lieder foi Robert Schumann (1810-1856). “Kennst du das Land?” baseia-se numa passagem da epopeia Wilhelm Meister de Goethe, em que uma jovem implora ao seu “protetor” que a deixe regressar a sua casa:
AUDIÇÃO: Lied Kennst du das Land de Schumann (1849), por Dawn Upshaw (soprano) e Richard Goode (piano)
(Para uma tradução portuguesa do texto da canção: https://antena2.rtp.pt/compositor/franz-liszt/letras-de-cancoes/mignons-lied-a-cancao-de-mignon/)
O ciclo de lieder mais famoso de Schumann é Dichterliebe (“Amores de um poeta”), com textos de Heinrich Heine. Vamos ouvir a décima canção do ciclo:
AUDIÇÃO: Lied Hör’ ich das Liedchen klingen (parte de Dichterliebe) de Schumann (1840), por Thomas Quasthoff (baixo-barítono) e Helène Grimaud (piano)
(Para uma tradução inglesa do texto da canção: https://oxfordsong.org/song/h%C3%B6r-ich-das-liedchen-klingen-2)
A era romântica foi o apogeu da música programática para orquestra, que tem como objetivo evocar ideias ou imagens extra-musicais no ouvinte. Embora as peças programáticas fossem puramente instrumentais (sem voz), eram frequentemente acompanhadas de um texto dado ao ouvinte, como foi o caso da Sinfonia Fantástica de Berlioz (1803-1869), considerada a sinfonia mais inovadora do séc. XIX. Berlioz compôs a sua Sinfonia Fantástica aos 26 anos, e subtitulou-a como “episódios de uma vida de artista”; na estreia da sinfonia, distribuiu um programa que detalhava as angústias de um artista que sofria um amor não correspondido. (Era um segredo conhecido que o ‘artista’ era uma versão ficcional do próprio Berlioz, apaixonado pela atriz Harriet Smithson.) É uma história de devaneio e paixão em que o sonho e a realidade se misturam com a morte e o oculto, elementos centrais na imaginação romântica. Vamos ouvir a Marcha para o Suplício que acompanha um sonho do artista, intoxicado pelo ópio após imaginar que o seu amor não era correspondido, marchando para o cadafalso.
AUDIÇÃO: Excerto do 4º andamento da Sinfonia Fantástica de Berlioz (1830), pela Filarmónica de Berlim conduzida por Nézet-Séguin
O século XIX foi também o apogeu das miniaturas para piano – peças de curta duração, mas frequentemente carregadas de emoção. Fryderyk Chopin (1810-1849) nasceu na Polónia, mas viveu em Paris durante a maior parte da sua vida profissional. Compôs música quase exclusivamente para piano solo. As peças para piano de Chopin não tinham títulos poéticos, como as de alguns contemporâneos; em vez disso, distribuiu-por diferentes tipos como estudos, baladas, ou mazurcas (dança polaca). Os “Prelúdios” não serviam como introdução a outras obras musicais, como o nome parece indicar; eram peças independentes que não se enquadravam nas outras categorias de Chopin. Os 24 prelúdios de Chopin são frequentemente tocados como um conjunto, e constituem uma alusão distante aos 24 prelúdios para Cravo bem-Temperado de Bach (que Chopin tocava de cor).
AUDIÇÃO: Prelúdio Nº 4 in Mi menor, op. 28 de Chopin(1834-39), por Maria João Pires
Lizst viveu em Paris na mesma época de Chopin, ambos eram pianistas e compositores, e pertenciam ao mesmo círculo profissional. A Consolação nº3 de Lizst parece aludir ao estilo de escrita de Chopin, e pensa-se ser um tributo a este, que tinha falecido no ano anterior ao da composição:
AUDIÇÃO: Consolação nº3 de Liszt (1850), por Beatrice Berrut
Em contraste com esta peça, que tem uma atmosfera serena e doce, Liszt é conhecido por peças apaixonadas e temperamentais, de um virtuosismo pianístico quase inatingível – o que se relaciona também com o contexto da época. Na passagem para o século XIX, a Europa Ocidental assistiu a uma reviravolta na sua base económica, que deixou os compositores em dificuldades, à medida que os antigos patronos das artes aristocráticos fugiam com medo de Napoleão. Os compositores foram assim forçados a recorrer aos consumidores emergentes da classe média em busca de sustento, enfrentando os perigos deste público inconstante; recorreram então ao cultivo de um carisma impactante, e da demonstração de capacidades de desempenho surpreendentes capazes de chamar a atenção. Seguindo o exemplo de Beethoven, deixaram para trás a auto-imagem do compositor da era clássica como um artesão altamente treinado, e consideravam-se frequentemente heróis (ou anti-heróis), correspondendo às exigências do mercado por celebridades grandiosas.
Lizst foi o maior virtuoso do piano que o mundo tinha conhecido até então; diz-se que a força da sua personalidade musical era tal que mulheres desmaiavam após apenas um único toque nas teclas do piano. Entre 1839 e 1847 deu mais de 1000 concertos em maior parte da Europa, impressionando o público com o seu virtuosismo pianístico e showbiz. Antes de começar a tocar removia cerimoniosamente um par de luvas brancas, e no palco estava sempre presente um segundo piano, para que o público pudesse admirar a sua habilidade de todos os ângulos. O impacto produzido nos espectadores pode ser deduzido da seguinte descrição do poeta romântico Heinrich Heine, que cunhou o termo “Lisztomania”: “Quando se senta ao piano e, tendo repetidamente empurrado o cabelo para trás sobre a testa, começa a improvisar, depois frequentemente enfurece-se loucamente sobre as teclas de marfim e liberta um dilúvio de ideias avassaladoras, com algumas flores de cheiro doce aqui e ali para derramar a sua fragrância sobre o todo. A pessoa sente tanto bem-aventurança como ansiedade – mas mais ansiedade!”. No Museu nacional da Música, em Mafra, temos um piano que Lizst utilizou na sua digressão ibérica em 1844-1845, e posteriormente ofereceu à corte portuguesa.
AUDIÇÃO: Un sospiro de Liszt(1845-49), por Van Cliburn