
O casal Ludwig e Malvina Schnorr von Carolsfeld como Tristão e Isolda na estreia da ópera de Wagner em Munique, em 1865. A morte súbita de Ludwig apenas 6 semanas depois da estreia, para além de desmaios, ataques de lágrimas e outros delírios que proliferaram nas primeiras apresentações, deram origem a um mito de que esta ópera produz um fascínio perigoso que pode ser letal.
HISTÓRIA DA MÚSICA DO ROMÂNTICO (1800-1900), PARTE 3
Richard Wagner (1813-1883) dominou a cena operática na Alemanha no séc. XX, e influenciou imenso o desenvolvimento da música do final do séc. XIX e XX. Foi um nacionalista fervoroso, e baseou muitas das suas óperas em mitos germânicos.
Uma das características encontrada em quase todas as suas composições é a utilização de leitmotivs (motivos condutores): ideias melódicas associadas a personagens, objetos, temas ou emoções. O leitmotiv wagneriano extrapolou o âmbito da obra de Wagner e pode ser encontrado em toda a cultura popular, bem como na música moderna. Muitas das convenções atuais da ópera – como o público em silêncio, e a orquestra escondida no fosso – foram introduzidas por Wagner, que concebeu em Bayreuth o seu teatro ideal para a apresentação das suas óperas (e que continua bem ativo, com um festival anual de culto). [Abro aqui um parêntesis sobre as convenções sociais associadas à ópera, baseado no artigo https://www.historytoday.com/archive/music-time/sound-silence: Quando as primeiras casas de ópera públicas foram fundadas em meados do século XVII, foram projetadas mais como locais de interação social do que como espaços de experiência estética. Os camarotes eram perfeitos para entreter convidados, trocar intrigas ou simplesmente ser-se visto. Abaixo, ficava a plateia. Geralmente aberta e sem assentos, era o espaço reservado a grupos de menor estatuto económico, incluindo soldados, estudantes e criados, que o utilizavam para encontrar amigos, beber e jogar. Consequentemente, a música era tratada com indiferença ruidosa, na melhor das hipóteses, ou com desprezo vocal, na pior. O público estava mais interessado nas suas próprias conversas do que no que acontecia no palco. Talvez ouvissem uma ária ou assistissem aos momentos de dança (se existissem), mas nada além disso; e, se não gostassem do que ouviam, manifestariam ruidosamente o seu desagrado. O silêncio na ópera só passou a ser regra no séc. XIX, em grande parte pela influência de Wagner. Ainda assim, Rossini, compositor do séc. XIX, compôs óperas contando com o ruído do público.]
Wagner concebeu a ópera ideal como um espetáculo total onde se unificam música, poesia, ação, encenação, e até cenografia, perfeitamente fundidos ao serviço de uma única ideia dramática. (O termo usado por Wagner para o produto de tal fusão era Gesamtkunstwerk – “obra de arte total”.) Vamos ouvir o Prelúdio da ópera Tristão e Isolda: aqui está só a orquestra, ainda sem vozes, e logo no início é introduzido o leitmotiv amor-morte, numa harmonia com dissonâncias que não resolvem como seria de esperar, mantendo uma tensão em suspenso, que só terá algum sentido de resolução no final da ópera. Esta tensão e ambiguidade harmónica têm um enorme impacto expressivo – associado ao desejo amoroso, e à combinação inextricável de amor e morte – e criaram também um enorme impacto na história da música. Levando a harmonia tonal até ao limite, muitos vêm neste Prelúdio o início do processo que levou à desintegração da tonalidade no séc. XX, e consequente nascimento da atonalidade, dodecafonismo de Schoenberg, e outras vanguardas.
AUDIÇÃO: Prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner, pela Filarmónica de Berlim (dirigida por Herbert von Karajan)
Tal como Wagner, Gustav Mahler (Áustria, 1860-1911) escreveu para uma orquestra muito alargada (a sua Sinfonia nº8 requer 150 músicos, para além de dezenas de cantores), e ficou conhecido principalmente pelas suas 9 Sinfonias. Provavelmente vão reconhecer o Adagietto da sua 5ª Sinfonia, escrito como uma canção de amor (sem palavras) para a sua mulher Alma:
AUDIÇÃO: Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler, pela Filarmónica de Berlim (dirigida por Claudio Abbado)
Tal como Beethoven inseriu voz nalgumas das suas sinfonias – como é exemplo o famoso Hino da Alegria, parte da 9ª -, Mahler escreveu também sinfonias com vozes solistas e coro, para além da orquestra. Para mim, um dos momentos mais poderosos desta conjugação de forças massivas é o final da sua 2ª Sinfonia, conhecida como “Ressurreição”:
AUDIÇÃO: Final da 2ª Sinfonia de Mahler (Ressurreição), pela London Symphony Orchestra
O texto cantado na Sinfonia, e notas de programa escritas pelo próprio Mahler, podem ser encontrados aqui: https://gustavmahler.com/symphonies/mahler-symphony-2.html
E ainda uma curiosidade: um vídeo em que o violoncelista Nathan Chan, com apenas dois anos, reage, imitando, à interpretação expressiva do maestro Seiji Ozawa deste mesmo final da Ressurreição:
Mais a sul, Verdi (1813-1901) e Puccini (1858-1924) foram os grandes nomes da ópera italiana do séc. XIX. Uma das arias de Puccini mais famosas é Nessun Dorma, da ópera Turandot. Nesta ópera, uma princesa bela e fria (Turandot) apenas casará com um homem que responder corretamente a três enigmas, e os que falharem serão decapitados. No entanto, quando um desconhecido responde acertadamente aos 3 enigmas, ainda assim Turandot mostra resistências a casar-se, e é a vez dele de lhe lançar um enigma: descobrir o seu nome até ao amanhecer:
AUDIÇÃO: Nessun Dorma, da ópera Turandot de Puccini (1920-1924), cantada por Pene Pati
Embora a próxima aria esteja muito associada a Maria Callas, vamos ouvir O Mio Babbino Caro (da ópera Gianni Schichi) pela cantora Sissel.
AUDIÇÃO: O Mio Babbino Caro (da ópera Gianni Schichi) de Puccini (1918), por Sissel
Mais a oriente, Tchaikovsky (1840–93) foi o primeiro compositor russo com fama internacional. Criou um estilo de música russa que incorporou desenvolvimentos da tradição musical da Europa Ocidental, mantendo-se, ao mesmo tempo, integralmente russo. As suas três partituras completas para ballet – O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida e O Quebra-Nozes – são consideradas obras-primas da tradição clássica. Vamos começar por ouvir o Concerto nº1 para piano, cheio de melodias que teimam em não largar o ouvido:
AUDIÇÃO: Concerto nº1 para piano de Tchaikovsky (1875), por Martha Argerich
No Bailado Quebra-Nozes, a história começa na véspera de Natal e acompanha uma jovem, Clara, que recebe um boneco Quebra-Nozes de presente, que abre portas para uma aventura mágica. Depois de conhecer a rainha do gelo, e ver a dança dos flocos de neve, Clara é levada numa nuvem para o Reino dos Doces, e recebida pela Sugar Plum Fairy (‘Fada do Açucar’). Vamos ouvir a dança das flores e da gota de orvalho:
AUDIÇÃO: Valsa das Flores do bailado Quebra-Nozes de Tchaikovsky (1892), pelo New York City Ballet
Vamos terminar voltando ao piano, com um outro compositor russo – Sergei Rachmaninoff (1873-1943), um dos últimos expoentes do Romantismo. Escreveu música virtuosa e magnificente para o piano, em parte motivado pelas suas mãos invulgarmente grandes, que conseguiam alcançar 12 teclas do piano…
AUDIÇÃO: Piano Concerto nº2 de Rachmaninoff (1901), por Evgeny Kissin
AUDIÇÃO: Momento Musical nº4 de Rachmaninoff (1926), por Nikolai Lugansky
AUDIÇÃO: Elegie op.3 nº1 de Rachmaninoff (1892), por Nikolai Lugansky