
Fotografia da Condessa Élisabeth Greffulhe (1895), a quem Fauré dedicou a sua Pavane.
HISTÓRIA DA MÚSICA DO SÉCULO XX (1900-1930), PARTE 2
A música de Gabriel Fauré e Maurice Ravel, não tendo na altura um impacto tão claramente disruptivo como, por exemplo, a de Schoenberg ou Stravinsky, trouxe sonoridades novas e de um apelo irresistível. Por vezes associada a etiquetas como “música impressionista”, ou “sonoridade francesa”, diz-se também, por exemplo no caso da música para piano de Ravel, que levou a cabo uma revolução de veludo – renovando a linguagem musical sem perturbar a paz.
Gabriel Fauré (1845 – 1924)
Compositor e organista em várias igrejas parisienses, Fauré foi também diretor do Conservatório de Paris, influenciando uma geração de compositores, entre os quais Maurice Ravel. O seu Requiem (missa fúnebre), composto entre 1887 e 1890, com versão definitiva em 1900, foi escrito na sequência da morte dos seus pais. Ao contrário da tendência em voga, que conferia ao requiem um estilo imponente e angustiado, Fauré optou por um ambiente mais sereno, inspirado pelo canto gregoriano medieval, harmonia de pendor impressionista, e orquestração intimista. Do conjunto de textos que constitui habitualmente um requiem, “Fauré omitiu deliberadamente a sequência Dies irae e outros textos de terror exacerbado, centrando-se nos movimentos que evocam consolação, luz eterna e paraíso. “Tudo o que escrevi com intenção dramática foi para o teatro”, explicou ele; “este Requiem é como eu próprio concebo a morte.” Acrescenta ainda que “A morte não me aterroriza; vejo-a como uma feliz libertação, uma aspiração à felicidade do além, mais do que como uma passagem dolorosa.”
Devo confessar que estava um pouco ansiosa por partilhar este Requiem – tenho uma admiração pela obra já desde a adolescência, e embora aqui só inclua dois andamentos, convido-vos a ouvirem-na na sua totalidade (cerca de 35 minutos).
Vamos começar pelo ambiente etéreo do “Sanctus”:
AUDIÇÃO: Requiem – Sanctus, de Gabriel Fauré (1900), pelo Coro e Orquestra de Paris.
O Agnus Dei começa com dois temas expressivos e algo dramáticos, que são magicamente interrompidos pela palavra “lux” (de “lux aeterna”) nos sopranos, em 2’04:
AUDIÇÃO: Requiem – Agnus Dei, de Gabriel Fauré (1900), por City of London Sinfonia e The Cambridge Singers
Para além de música sacra, Fauré escreveu também muitas canções e “música para salão” – destinada aos salões mais elegantes de Paris, que frequentava. Entre esta música de salão, provavelmente a mais célebre é a Pavane, inspirada na Pavana, uma dança palaciana e de corte do período da Renascença (cujo nome possivelmente alude à postura altiva do pavão quando exibe a sua cauda). Fauré dedicou a Pavane à Condessa Élisabeth Greffulhe, que chamava de «Madame ma Fée» (minha fada).
AUDIÇÃO: Pavane, de Gabriel Fauré (1886), pela Orchestre National de France.
Maurice Ravel (1875 – 1937)
Ravel foi aluno de Fauré no Conservatório de Paris, e a sua música foi associada ao ‘Impressionismo’ juntamente com a de Debussy, embora ele não gostasse do termo. Filho de um engenheiro suíço e de uma mãe de origem basco-espanhola, a herança espanhola ficou marcada pelas canções que a mãe lhe cantava, embora tenha crescido em Paris. Muito eclético, combina formas antigas da tradição clássica com jazz (principalmente após a sua visita aos EUA, em que conheceu George Gershwin, em 1928), música tradicional espanhola, basca, grega, javanesa, japonesa. Toda a sua produção musical é meticulosamente sofisticada, subtil e elegante; como se dedicava muito a cada obra, com mestria técnica incansável, é por vezes considerado um “artesão da música”.
Uma vez que o Bolero é a peça mais conhecida de Ravel, deixo-a aqui entre parêntesis, caso a queiram relembrar, continuando abaixo com outras obras.
(O Bolero, composto para um bailado, por encomenda da bailarina russa Ida Rubenstein, leva a estética da repetição ao extremo. Baseia-se num ostinato rítmico para a caixa, sempre constante ao longo da peça (para desafio do percussionista, que tem que manter o mesmo tempo e ritmo durante quinze minutos!), e uma melodia inicialmente ouvida na flauta, que se repete mais dezoito vezes, passando por vários instrumentos diferentes. Ravel considerou o Bolero apenas um exercício de orquestração, e terá ficado surpreendido, talvez até irritado, com a sua enorme popularidade; disse que consistia “inteiramente num tecido orquestral sem música”. No entanto, o seu ritmo hipnótico, a paleta de cores da orquestração, e o apelo exótico da melodia, fizeram do Bolero um sucesso imediato.
AUDIÇÃO: Bolero, de Maurice Ravel (1928), pela WDR Sinfonieorchester)
Também muito popular é a Pavane pour une infante défunte – que ao contrário do que o título poderia indicar, não se trata de um cortejo fúnebre para uma princesa recém-falecida, mas sim de uma dança para “uma princesa do passado”. Foi composta originalmente para piano solo, e depois orquestrada; vamos ouvir as duas versões:
AUDIÇÃO: Pavane pour una infante défunte, para piano solo, de Maurice Ravel (1899), por Alice Sara Ott.
AUDIÇÃO: Pavane pour una infante défunte, para orquestra, de Maurice Ravel (1910), pela Orquesta Sinfónica de Galicia.
Na peça para piano Gaspard la Nuit está muito claro o pendor impressionista – caracterizado pelo apelo dos sonhos, sugestões quase visuais de imagens poéticas, como o correr e fluir da água. O primeiro andamento, Ondine, descreve uma ninfa da água que canta para seduzir o observador a visitar o seu reino no fundo de um lago:
AUDIÇÃO: Gaspard de la nuit: I. Ondine, para piano,de Maurice Ravel (1908), por Seong-Jin Cho.
Nos últimos anos da sua vida, Ravel sofreu de uma doença neurológica progressiva que afetou a sua coordenação e fala, impedindo-o de compor, embora a sua mente permanecesse lúcida. Faleceu em 1937 (com 62 anos), após uma cirurgia cerebral malsucedida. Uma das suas últimas obras-primas é o concerto para piano em sol menor; depois de um primeiro andamento virtuoso e jazzístico, segue-se um andamento lento que estará com certeza entre as peças mais belas e comoventes já escritas:
AUDIÇÃO: Concerto para piano e orquestra em sol menor: II. Adagio assai, de Maurice Ravel (1929-1931), por Martha Argerich e London Symphony Orchestra.